Jacques Lacan (1901-1981) / Nó Borromeano

Jacques Lacan (1901-1981) / O Nó Borromeano 

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Entre 1969 e 1982, andei pelas poltronas de alguns psicanalistas, a maioria lacaniana. Aprendi e desaprendi muita coisa, coisas benditas. Este não é o espaço para caber Lacan. Contudo, cabe para resumir uma de suas ilustrações intrigantes – O Nó Borromeano, considerando que faço uso dele em um de meus blogs – sobre Hipnose – Psicose – Linguagem.

O Nó borromeano não é uma invenção original de Jacques Lacan. O próprio Lacan menciona em seu Seminário 20 que o havia notado no brasão da dinastia da família Borromeo. O uso que se faz da tríade para representar uma Unidade, também data de tempos muito antigos. Lacan usou-o para ilustrar a unidade do Sujeito, o Cristianismo como símbolo da Santíssima Trindade, etc.

Na matemática da Teoria dos Nós, um entrelaçamento Brunniano é uma trama de ligação entre três ou mais elementos geométricos que se separam caso um desses elementos seja removido. O adjetivo deriva do artigo Über Verkettung (Sobre entrelaçamento), escrito em 1892 pelo matemático alemão Hermann Brunn. O nó borromeano é um caso particular, onde o entrelaçamento é de três elementos circulares (extrema direita da figura abaixo).

 

Exemplos de entrelaçamento brunniano

 

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O Nó Borromeano na História

Parte das descrições abaixo foram pesquisadas no site The Borromean Rings

clip_image010O nó recebe o nome de Borromeu e ao uso que foi feito no brasão de uma família italiana, os Borromeo. No entanto encontra-se o nó borromeano bem antes disso, como por exemplo na arte budista afegão do século II. Percebe-se também algumas apresentações na mitologia grega. O nó borromeano foram utilizados em diferentes contextos, para simbolizar a força e unidade, especialmente a religião e as artes. Na psicanálise, o nó borromeano foi escolhido por Jacques Lacan para discutir a estrutura do sujeito, o que é a principal razão de sua maior popularidade.

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Em uma forma triangular são conhecidas como valknut, símbolo dos mortos de alguns povos nórdicos. O valknut é encontrado em pedras rúnicas, datadas do século VII, na Escandinávia.

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Michelangelo Buonarroti (1475-1564) marcava seus blocos de mármore com o símblo adjacente à letra M. De acordo com o pintor e arquiteto florentino Giorgio Vasari, os círculos representavam as três artes: escultura, pintura e arquitetura, que deveriam permanecer juntas e inseparáveis,

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  clip_image020 Após a morte de Michelangelo, os artistas florentinos o homenagearam transformando os anéis em coroas de folhas de louro. Elas podem ser vistas em sua tumba, projetada pelo pintor e arquiteto Giorgio Vasari, ao fundo da nave lateral da igreja de Santa Croce em Florença.

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  Baixo relevo dos anéis concatenados em uma medalha de Cosimo de Medici (1389-1464). Reparem que não é um entrelaçamento brunniano. clip_image016

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Atenas e o Centauro, pintado por Sandro Botticelli em 1482.  O nó borromeano com seus anéis ilustra o estampado da veste da deusa. Os arabescos dos anéis são semelhantes ao da medalha de Cosimo de Médici, contemporâneo do pintor.

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  Símbolo da Santíssima Trindade cristã. Desenhado a partir de uma ilustração do século XIII encontrada em um manuscrito francês na cathedral de Chartres, e como foi reproduzida no livro de Didron “Iconografia Cristã” (1843).
A inscrição da figura ao lado deve ser lida iniciando-se com a palavras unitas, no centro, e seguindo as sílabas a partir da esquerda em sentido horário: Unitas Tri-ni-tas, ou seja Um em Três, ilustrando a Trindade dos nomes do Pai, do Filho e do Espírito Santo.

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 RSI (Real – Simbólico – Imaginário)

"O Real é o impossível de abordar, o inefável, o indizível"

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Lacan viu pela primeira vez a imagem do nó borromeano durante um jantar, nas armas de uma dinastia milanesa: a família Borromeu. Três círculos em foram de trevo se simbolizam uma tríplice aliança, tendo como sua especificidade o fato de que, se cada um dos anéis for retirado, os outros três ficarão livres, sem que se forme um par.

Cada um dos três círculos do nó borromeano representa umas das instâncias que compõe o aparelho psíquico: 1) o simbólico, a combinatória sem substância que organiza os significantes; 2) o imaginário, a dimensão do que se vê ou que se pensa que se vê dos objetos; e 3) o real, aquilo que, por escapar à possibilidade de recobrimento total pelos significantes, permanece na zona do inominável.

O nó borromeano, conforme articulado por Lacan no seminário 20 (Idem), é formado por três rodinhas de barbantes que se enlaçam de forma que formam, juntas um nó. Cada rodinha representa um dos registros pensados por Lacan e é uma parte autônoma, intercambiável. O nó, porém, só ocorre pela amarração da terceira rodinha, que enlaça todas num único laço. Lacan propõe o enigma: como fazer para que as rodinhas fiquem juntas de tal modo que, se uma delas for cortada, as outras fiquem livres?

É no mínimo intrigante que Lacan proponha um enigma a seus ouvintes e leitores para ilustrar o que acontece com os registros ao final de uma análise porque é exatamente o enigma do próprio desejo e de como o sujeito lida com ele que leva alguém para o divã.

A resposta do enigma proposto pelo psicanalista é que a segunda rodinha deve ser dobrada por dentro da primeira e a terceira deve amarrá-la para que se fixe essa dobra. O que faz laço entre todas e o que impede que elas façam par é exatamente a dobra. Impossível entender como se dá essa nodulação sem, ao menos visualizar a figura. O melhor seria que cada leitor tomasse um tempo para “experimentar” o nó.

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Para Rabinovich, a estrutura borromeana implica uma equiparação das três ordens, real, simbólico e imaginário, sendo que cada uma delas tem a mesma importância que as demais. Cada um dos anéis se organiza de modo diferenciado do outro. Ao mesmo tempo, esse processo permite que, depois que essa organização se dê, ela se auto-anule, pois, uma vez que são intercambiáveis, cada anel pode sempre ser o outro.

http://www.psicanaliselacaniana.com/estudos/magicoreal.html

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Ilustração do RSI, por A. Claudete A. L. Prado

http://www.instituto-trianon.com.br/oestadiodoespelho_psicanalise.html

1 comentários:

João Victor Araripe disse...

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