— Introdução —

Acontecimentos que marcaram tempos e lugares. Imagens e ditos benditos e benvindos. Vieram de amigos e parentes, escritores, mitos, músicos, poetas, cineastas, cientistas e filósofos.

Arthur Dapieve. José Saramago, ao olhar a bunda de sua mulher, Pilar, inspira Dapieve na mais perfeita e sintética definição de amor. Um compêndio condensado em uma frase;
Sommerset Maughan. O Fio da Navalha foi um livro que só conta por uma citação da folha de rostro que me levou a ler em seguida os Upanishads e o  Bhagavad Gita.
Julio Cortázar e um texto sobre o beijo, que desencoraja qualquer tentação em se escrever algo semelhante;
José Saramago. O mais puro lirismo erótico de uma primeira noite de amor, que se seguiu à mais longa declaração de amor por telefone que alguém já registrou;
Walter Benjamin. Outro olhar, uma outra visão que desmonta os cânones estéticos;
Calderón de La Barca, que afortunadamente intrometeu-se em meu encontro com Aurora em Madrid;
Djavan e os versos que roubei de  para presentear Jocasta;
Alexander Pope e um poeminha que narra o Gênesis da física moderna, um fiat Newton incomparável;
Anna de Noailles, condessa mundana da Belle Époque, e um curto verso de sete palavras que desafia qualquer tradutor da língua francesa;
Gulherme de Brito e a canção cuja letra me orientava em encontros com pessoas tristes;
Zé Kéti e outra letra, que eu costumava cantarolar, em momentos oportunos, para minhas namoradas adolescentes;
— Euclides da Cunha
e a mais bela página da literatura brasileira;
Guimarães Rosa ficou para sempre com o romance Grande Sertão, Veredas e os contos de Sagarana. O romance..., levei trinta anos para lê-lo como deveria, isto é, palavra por palavra. Sagarana é releitura que se repete com freqüência, talvez pela intimidade que tenho com os sertões e o agreste de Minas Gerais;
Fernando Pessoa e o mar português;
Carlos Drummnd de Andrade. Descobri uns versos de Drummond que seriam, com certeza, uma resposta a outros de Fernando Pessoa;
Inês Pedrosa é uma descoberta recente. Transcrevo dois curtos parágrafos que me levaram a ler vários de seus livros;
Ingrid Borinski, há trinta anos, presenteou-me com sua tradução de Herzstück (Peça do Coração em Um Ato), de Heiner Müller. Uma jóia humorística que é pouco ou quase nada conhecida no Brasil, embora tenha sido traduzida para uma dezena de idiomas;
Ivan Lins. Ao me recuperar de um prolongada depressão, seus versos me mostraram “que a vida pode ser maravilhosa”;
O Cristo Carpinteiro, de autor desconhecido. A frase mais terrível que já lí!
Marcel Proust e John Ruskin. Minhas conexões com ambos e entre eles;
de Fernanda Schnoor, me restaram alguns poemas, um breve texto e um postal com a letra da música “A little Kiss each morning”;
John Keats não me passou desapercebido. Lí o longo poema Endymion, mas minha homenagem é feita pela transcrição do primeiro verso (um dos mais belos e famosos da língua inglesa);
Wolfgang von Goethe escreveu uns versos que compunham um mandamento para os estudantes de geologia da Universidade de Viena. Arrisquei uma tradução;
Hector Bianciotti, que me mostrou a diferença entre “l’oiseau” e “el pájaro”;
Manoel Bandeira ficou-me inesquecível com sua Passárgada. Quantas vezes eu recitei aqueles quatro versos!!!;
Paulo Mendes Campos. Um vício. É um dos dois autores de quem li toda a obra. Algumas delas ainda em minha mesa de cabeceira;
Oscar Wilde é o outro. Também sempre à mão;
Eduardo Galeano foi leitura obrigatória dos anos 1970. Contestador das injustiças sofridas pelos atormentados povos dos terceiro e quarto mundos. Impossível de resumí-lo. Leiam-no todo. Menciono apenas quatro ditos de um lado seu de humor oportuno. Gostaria de ter escrito essas frases;
Kurt Gödel é aqui acompanhado por Douglas Hofstadter. Gödel, com seu Teorema da Incomplitude, derrubou os alicerces lógicos da colossal obra de Bertrand Russel e Alfred Withehead – Principia Mathematica. Esse teorema hyper-complexo passou a ser accessível ao entendimento do leitor curioso através do livro de Hofstadter – Gödel, Escher & Bach, talvez o livro, livro não, o compêndio mais “rico” que já li. Sempre à mão para consultas constantes;
Edgar Alan Poe e a descoberta de Lenore;
Gilgamesh. Vai e volta, releio o trecho dessa epopéia, o mais antigo texto impresso que se tem notícia. Também ousei levantar a possibilidade de a história desse herói ter influenciado Guimarães Rosa em sua outra epopéia, o Grande Sertão, Veredas;
Pérola Akerman, arquiteta, psicóloga e filosófa, estava inspiradíssima quando conseguiu a proeza de resumir grande parte do ensinamento de Jacques Lacan em um único poema;
— Ligia Karam
, minha mulher, que sempre soube transformar os ditos em feitos e fatos;
Félix Arver, o poeta de um único poema, dos mais famosos do romantismo francês do séc. XIX;
Muhamad Ali e o mais curto poema da língua inglesa. Quatro letras em duas palavras;
— Pablo Neruda
e os dois de seus poemas mais famosos dos Anos Dourados do Rio de Janeiro;
Axel Munthe. Para saber do impacto em se avistar uma fada, leiam o trecho de o Livro de San Michele;
Rainer Maria Rilke e os três versos que me foram segredados por Ieda Inda, porém ela não cumpriu o dito.... e foi o fim de um affair;
Robert Frost. Um verso bastante conhecido do poema The Road not taken,  ajudou-me quando tomei a difícil decisão de ir trabalhar na Guiné Bissau;
Jehovah e o mais universal dos ditos do mais famoso mito da civilização judáico-cristã;
Jacques Lacan e seu dito ilustrado e intrigante, o Nó Borromeano;
François Villon, poeta alcóolatra, ladrão, assassino, condenado à forca e banido;
— Joana Narvaez y yo... Yo que no creo en brujas, pero que las hay, las hay!
Tatiana Weihmann, alvejante do meu niver com presença e palavras;
— Li Po
, poeta do século VIII, e um amor cuja “profundidade” jamais foi igualada;
— T.S. Eliot
e seus gatos;
— Isaac Asimov.
O autor mais prolífico de todos os tempos. Um monumento. Publicou 515 livros. Li 77 (ainda em minha estante);
Ezra Pound. Um mestre. A mais precisa e concisa definição de poesia que conheço;
Thomas Freiedeman. Uma alegoria de uma tribo africana que resume a vida atribulada e competitiva do mundo globalizado;— A Segunda Lei da Termodinâmica / Entropia - Uma atração fatal;
Ditos de Maria Antônia, irmã e minha primeira tutora literária;
de sobra, Poesias de Luis Alfredo e, com entrada separada
Maria e José…Nunca Mais!!!


Hoje 4 de janeiro de 2011, ainda faltam: Ligia, Lara, Maria Vitória, James Joyce, Lawrence Durrel,  Jack Kerouac, Paul Géraldy, Jacques Prevert, Federico Garcia Lorca, Vladmir Maiakovski, Friedrich Nietzsche, Ferreira Gullar, François Villon, e mais…

***

Thomas Friedman (1953- )

Thomas Friedmanclip_image002 (1953- ) 

Jornalista e escritor norte-amerincano, editor do New York Times.

Este não é um site de citações, mas não pude deixar de me contrariar para transcrever o mais perfeito resumo da vida atribulada e competitiva do mundo globalizado. Uma fábula! A propósito, o livro de onde foi retirado essa alegoria africana, O Mundo é Plano, é um conjunto de revelações espantosas do final do séc. XX. Creio que para o séc. XXI, Friedman já está esboçando o que deverá intitular O Mundo é um Ponto.

Todos os dias de cada manhã, na selva africana, o antílope desperta.
Ele sabe que terá de correr mais rápido do que o mais rápido dos leões,
para não ser morto.
Todos os dias, pela manhã, também desperta o leão.
Ele sabe que terá de correr mais rápido do que o antílope mais lento,
para não morrer de fome.
Não interessa que bicho você é, se leão ou antílope:

               Assim que amanhecer, corra!

(Provérbio africano, citado em
em O Mundo é Plano, 2006)

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— Introdução —

Acontecimentos que marcaram tempos e lugares. Imagens e ditos benditos e benvindos. Vieram de amigos e parentes, escritores, mitos, músicos, poetas, cineastas, cientistas e filósofos.

Arthur Dapieve. José Saramago, ao olhar a bunda de sua mulher, Pilar, inspira Dapieve na mais perfeita e sintética definição de amor. Um compêndio condensado em uma frase;
Sommerset Maughan. O Fio da Navalha foi um livro que só conta por uma citação da folha de rostro que me levou a ler em seguida os Upanishads e o  Bhagavad Gita. Julio Cortázar e um texto sobre o beijo, que desencoraja qualquer tentação em se escrever algo semelhante;
José Saramago. O mais puro lirismo erótico de uma primeira noite de amor, que se seguiu à mais longa declaração de amor por telefone que alguém já registrou;
Walter Benjamin. Outro olhar, uma outra visão que desmonta os cânones estéticos;
Calderón de La Barca, que afortunadamente intrometeu-se em meu encontro com Aurora em Madrid;
Djavan e os versos que roubei de  para presentear Jocasta;
Alexander Pope e um poeminha que narra o Gênesis da física moderna, um fiat Newton incomparável;
Anna de Noailles, condessa mundana da Belle Époque, e um curto verso de sete palavras que desafia qualquer tradutor da língua francesa;
Gulherme de Brito e a canção cuja letra me orientava em encontros com pessoas tristes;
Zé Kéti e outra letra, que eu costumava cantarolar, em momentos oportunos, para minhas namoradas adolescentes;
— Euclides da Cunha
e a mais bela página da literatura brasileira;
Guimarães Rosa ficou para sempre com o romance Grande Sertão, Veredas e os contos de Sagarana. O romance..., levei trinta anos para lê-lo como deveria, isto é, palavra por palavra. Sagarana é releitura que se repete com freqüência, talvez pela intimidade que tenho com os sertões e o agreste de Minas Gerais;
  Fernando Pessoa e o mar português;
Carlos Drummnd de Andrade. Descobri uns versos de Drummond que seriam, com certeza, uma resposta a outros de Fernando Pessoa;
Inês Pedrosa é uma descoberta recente. Transcrevo dois curtos parágrafos que me levaram a ler vários de seus livros;
Ingrid Borinski, há trinta anos, presenteou-me com sua tradução de Herzstück (Peça do Coração em Um Ato), de Heiner Müller. Uma jóia humorística que é pouco ou quase nada conhecida no Brasil, embora tenha sido traduzida para uma dezena de idiomas;
Ivan Lins. Ao me recuperar de um prolongada depressão, seus versos me mostraram “que a vida pode ser maravilhosa”;
O Cristo Carpinteiro, de autor desconhecido. A frase mais terrível que já lí!
Marcel Proust e John Ruskin. Minhas conexões com ambos e entre eles; 
de Fernanda Schnoor, me restaram alguns poemas, um breve texto e um postal com a letra da música “A little Kiss each morning”;
John Keats não me passou desapercebido. Lí o longo poema Endymion, mas minha homenagem é feita pela transcrição do primeiro verso (um dos mais belos e famosos da língua inglesa);
Wolfgang von Goethe escreveu uns versos que compunham um mandamento para os estudantes de geologia da Universidade de Viena. Arrisquei uma tradução; 
Hector Bianciotti, que me mostrou a diferença entre “l’oiseau” e “el pájaro”;
Manoel Bandeira ficou-me inesquecível com sua Passárgada. Quantas vezes eu recitei aqueles quatro versos!!!;
Paulo Mendes Campos. Um vício. É um dos dois autores de quem li toda a obra. Algumas delas ainda em minha mesa de cabeceira;
Oscar Wilde é o outro. Também sempre à mão;
Eduardo Galeano foi leitura obrigatória dos anos 1970. Contestador das injustiças sofridas pelos atormentados povos dos terceiro e quarto mundos. Impossível de resumí-lo. Leiam-no todo. Menciono apenas quatro ditos de um lado seu de humor oportuno. Gostaria de ter escrito essas frases;
Kurt Gödel é aqui acompanhado por Douglas Hofstadter. Gödel, com seu Teorema da Incomplitude, derrubou os alicerces lógicos da colossal obra de Bertrand Russel e Alfred Withehead – Principia Mathematica. Esse teorema hyper-complexo passou a ser accessível ao entendimento do leitor curioso através do livro de Hofstadter – Gödel, Escher & Bach, talvez o livro, livro não, o compêndio mais “rico” que já li. Sempre à mão para consultas constantes;
Edgar Alan Poe e a descoberta de Lenore;
Gilgamesh. Vai e volta, releio o trecho dessa epopéia, o mais antigo texto impresso que se tem notícia. Também ousei levantar a possibilidade de a história desse herói ter influenciado Guimarães Rosa em sua outra epopéia, o Grande Sertão, Veredas;
Pérola Akerman, arquiteta, psicóloga e filosófa, estava inspiradíssima quando conseguiu a proeza de resumir grande parte do ensinamento de Jacques Lacan em um único poema;
— Ligia Karam
, minha mulher, que sempre soube transformar os ditos em feitos e fatos;
Félix Arver, o poeta de um único poema, dos mais famosos do romantismo francês do séc. XIX;
Muhamad Ali e o mais curto poema da língua inglesa. Quatro letras em duas palavras;
— Pablo Neruda
e os dois de seus poemas mais famosos dos Anos Dourados do Rio de Janeiro;
Axel Munthe. Para saber do impacto em se avistar uma fada, leiam o trecho de o Livro de San Michele;
Rainer Maria Rilke e os três versos que me foram segredados por Ieda Inda, porém ela não cumpriu o dito.... e foi o fim de um affair;
Robert Frost. Um verso bastante conhecido do poema The Road not taken,  ajudou-me quando tomei a difícil decisão de ir trabalhar na Guiné Bissau;
Jehovah e o mais universal dos ditos do mais famoso mito da civilização judáico-cristã;
Jacques Lacan e seu dito ilustrado e intrigante, o Nó Borromeano;
François Villon, poeta alcóolatra, ladrão, assassino, condenado à forca e banido;
— Joana Narvaez y yo... Yo que no creo en brujas, pero que las hay, las hay!
Tatiana Weihmann, alvejante do meu niver com presença e palavras;
— Li Po
, poeta do século VIII, e um amor cuja “profundidade” jamais foi igualada;
— T.S. Eliot
e seus gatos;
— Isaac Asimov.
O autor mais prolífico de todos os tempos. Um monumento. Publicou 515 livros. Li 77 (ainda em minha estante);
Ezra Pound. Um mestre. A mais precisa e concisa definição de poesia que conheço; 
Thomas Freiedeman. Uma alegoria de uma tribo africana que resume a vida atribulada e competitiva do mundo globalizado;— A Segunda Lei da Termodinâmica / Entropia - Uma atração fatal;
Ditos de Maria Antônia, irmã e minha primeira tutora literária;
de sobra, Poesias de Luis Alfredo e, com entrada separada
Maria e José…Nunca Mais!!!

Hoje 4 de janeiro de 2011, ainda faltam: Ligia, Lara, Maria Vitória, James Joyce, Lawrence Durrel,  Jack Kerouac, Paul Géraldy, Jacques Prevert, Federico Garcia Lorca, Vladmir Maiakovski, Friedrich Nietzsche, Ferreira Gullar, François Villon, e mais…

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Ezra Pound (1875-1932)

Ezra Pound (1875-1932) Pound

Poeta, ensaista e crítico literário americano. Como Poeta-inventor, como se autodenominava, Pound implodiu as tradições dominantes da poesia norte-americana e inglesa da época com conceitos avant-garde que influenciaram fortemente a literatura ocidental.

Pound foi incisivo na descoberta e difusão dos trabalhos de T. S. Eliot (Prêmio Nobel), Robert Frost (quatro vezes vencedor do prêmio Pulitzer), e Ernest Hemingway (Prêmio Nobel). Eliot iniciou seu sucesso com a publicação de "The Love Song of J. Alfred Prufrock", em 1915, de que Pound foi responsável. Graças a ele, o Ulysses de James Joyce foi publicado parceladamente, em série, a partir de 1918, seis anos antes da obra estar terminada. É pouco?!! Um mestre que faz parte da história da criatividade humana.

Em seu livro ABC of Reading (1), Pound revela a mais precisa, bela e concisa definição de poesia que conheço: “linguagem condensada no mais alto grau”, fazendo referência ao radical da língua germânica “dicht”. Em alemão, “Dichte” = Denso; Dichter = Poeta, aquele que condensa; e Dichtung = Poesia, poema. O verbo Dichten = Poetar, fazer versos.

Um exemplo do que é poesia=condensação em um único verso: “Ao tocar em teus lábios uma criança pede vida.” (2).

No mesmo livro, no capítulo dichten=condensare, Pound dá uma chamada de pé-de-página esclarecedora: um estudante japonês nos EUA, ao ser perguntado qual a diferença entre prosa e poesia, respondeu “– Poetry consists of gists and piths.” Impossível traduzir pith com apenas UMA palavra: âmago, coração (como núcleo), impacto, ponto crítico, profundeza, quintessência. Da mesma forma, gist = essência, foco, substância. Os dois termos se mesclam. A melhor tradução seria: “– Poesia é essência e quintessência.”

***

(1) A primeira edição data de 1934, mas eu adquiri a de 1968, em inglês. Contudo, recomendo a tradução – ABC da Literatura, por Augusto de Campos e José Paulo Paes. Somente um erudito do calibre de Augusto de Campos para empreender essa tarefa!

(2) Ouvi isso verbalmente em 1958. Interessante, pois memorizei mas não me lembro quem disse.

Walter Benjamin (1892-1940)

Walter Benjamin (1892-1940) Walter Benjamin1
Ensaísta, crítico literário, e sociólogo judeu alemão. Entre outras obras famosas, destaca-se a tradução do trabalho monumental de Marcel Proust (neste site), Em Busca do Tempo Perdido.
A primeira página do livro de Benjamin, Einbahnstrasse (1928), apresenta ao leitor uma dedicatória enigmática:
Esta rua de chama
Rua Asja Lascis
Em homenagem àquela que,
Na qualidade de engenheira,
A rasgou dentro do autor
Em uma construção adaptada especificamente ao sentido não-metafórico do título metafórico, Asja Lacis aparece como uma engenheira civil onde Benjamin quer lhe agradecer a inspiração do livro (…) A imagem verbal e violenta que Asja Lacis lhe inspirou é agora incondicional. Ela se tornou em uma Einbahnstrasse, uma rua de mão única. - uma rua sem retorno possível. (1)

Ligia encontrou um trecho desse livro que fala sobre o amor e que é inigualável quanto à valorização suprema de alguns “defeitos” da pessoa amada. Um abordagem que ressalta o sentimento através de um olhar que se desvia dos cânones estéticos. Neste blog, Artur Dapieve discorre sobre a mesma visão. Mesma, mas através de um outro ângulo… muito original.
Eis as reflexões de Benjamin sobre a aparência de sua amada, Asja Lacis.
Asja_Lacis
“Quem ama não se apega apenas às falhas da amada, não apenas aos caprichos e as fraquezas de uma mulher. Rugas no rosto, sardas, vestidos surrados e um andar desajeitado o prendem de maneira mais durável e inexorável do que qualquer beleza . (...) E por quê? Se é correta a teoria segundo a qual os sentimentos não estão localizados na cabeça, mas naquele lugar desconhecido fora de nós mesmos quando olhamos para nossa amada. Ofuscado pelo esplendor da mulher, o sentimento voa como um bando de pássaros. E assim como os pássaros procuram abrigos nos esconderijos frondosos da árvore também se recolhem os sentimentos, seguros em seus esconderijos, nas rugas, nos movimentos desajeitados e nas máculas singelas do corpo amado. Ninguém ao passar, adivinharia que, justamente ali, naquilo que é defeituoso, censurável, aninham-se os dardos velozes da adoração.” (Einbahnstraße, 1928. Rua de mão única) (3)
***
(1) Ver resenha.
(2) Benjamin faz uma viagem à Itália em 1924 onde se apaixonou pela atriz letoniana, Asja Lacis (1891-1979), uma militante comunista que o introduz ao Marxismo. Os dois juntos escreverão “Neapel” (Nápoles), uma viagem de imersão na cidade italiana. Depois da estadia em Capri, Asja volta a Rússia para reunir-se com o seu homem. A relação amorosa com Lacis está cheia de altos-e-baixos mas, apesar de todos os contratempos mantêm,  contacto até a deportação de Lacis a Siberia em castigo por criticar o regime de Stalin (Wikilingue).
(3) Modificado de uma tradução de Olgária Matos
***

Júlio Machado (26-2-1968 )

 

julio machadogreenPoeta inconsútil mas desdobrável e multifacetado, seus poemas refletem uma luminosidade cristalina ou se escondem em escuridão inescrutável, impenetrável. Ou vagam aladamente ou te colocam em terra, firme ou movediça. Sua obra não é categorizável e desafia os adjetivos qualificativos. Malabarista das palavras e frases, quando não é feliz em versejar, faz uso de uma prosa preciosa. Ao leitor recomendamos cuidado nos comentários, visto Júlio ser extremamente sensível e talentoso em réplicas e tréplicas. Faria sucesso nos desafios do cordel e do repente de viola.

Já ganhei de presente um Alfa-Romeo, rosas, uma árvore, mas.... um soneto... é demais. Sem falar da composição fotográfica no Morro do Chapéu – Chapada Diamantina, que sozinha já é um poema. Como geólogos, eu e meu irmão redivivo Hermes Inda nos apropriamos dos dois martelos.

 

TEMPOS REMOTOS (*)

 

A um amigo do Leblon

Cá com meus botões:
Já estive em muitos lugares;
Até ao centro da terra eu já fui,
Com e sem Júlio Verne ...

Já cruzei tanto; tantos olhares ...
Convivi com Loucos e ditos normais,
Já me vi em tantas situações,
Já me trajei de tolerante pra ser social.

Mas agora, aqui nesse boteco tive um "insight" ...
Não por culpa dessa boa cachaça.
Tenho a sensação que nunca sai da mesma órbita ...

Sou só mais uma ilha plantada num oceano.
_ "Outra dose dupla, Olavo', por obséquio."
Que saudades das peripécias de tempos remotos

julio morro do chapeu
 

Foto selecionada por J.M. apud
http://www.panoramio.com/photo/9665160

***

A um amigo de Florianópolis

***

ESPAÇO A SER OCUPADO POR UM SONETO

***

(*) Publicado em Vagar Alado, blog de Júlio Machado

Roberto Cantoral García (1936-2010)

El Reloj       RobertoCantoral                 
Contam que esta música teria sido composta em um hospital, onde a esposa do compositor Roberto Cantoral estaria sendo submetida a uma cirurgia de altíssimo risco e que, segundo os prognósticos médicos, seria de difícil sucesso e sua  amada esposa poderia não amanhecer com vida. Embora esta música seja antiga, poucos têm conhecimento dessa história que motivou tão inspirada letra.
Apreciem-na! (enviado por Otávio do Rêgo Macedo, em 11/11/2011)

Alotriose (Alotriosis)

A noção de Alotriose foi desenvolvida com a psicanalista Mônica Tolipan, ao longo de intermináveis noitadas etílico-cerebrais em 1993. A Dra. Tolipan, em seu livro Uma Presença Ausente  fez uso do termo de forma algo distinta daquela aquí discutida em sua forma original. Mas ambas as semânticas se aproximam. O termo foi garimpado na obra Greek Philosophical Terms, de F. E. Peters (New York University Press, 1974).

Alotriose O equilibrista

      Figura 1: Posição de eqüilíbrio Psico-Orgânico promovido pela resultante das forças das pulsões. A tendência natural é impelir o ser-vivo à graus maiores de entropia, a potenciais energéticos mais baixos. O ser humanos se eqülibra entre a tendência de retorno à condição inorgânica (pulsão de morte) e a tendência de retorno à condição de animal inferior (pulsão de não-fala).

Antes de desenvolver o conceito, vamos rever brevemente as noções Freudianas de pulsão de vida e de pulsão de morte, e examinar suas relações com a entropia, essa Lei maior e anterior mesmo à criação do mundo orgânico.

CAVEIRA Pulsão de Vida - Pulsão de Morte - Entropia

    Na visão de Freud, "Como produto de considerações teóricas apoiadas na Biologia, nós assumimos a existência de um instinto de morte, cujo objetivo é o de redirecionar a matéria orgânica de volta ao estado inorgânico." (Freud, 1923, pp. 708-709), enquanto que Eros vem produzir "uma inacreditável coalescência entre as partículas...possibilitando assim a manutenção da vida."(p. 709). Para Freud , o aparecimento da vida tem causa igual a da manutenção da vida e do impulso em direção à morte. "Nessa visão, o processo fisiológico específico de anabolismo/catabolismo estaria associado a essas duas classes de instinto; ambos os instintos estariam ativos em todas as partículas das substâncias vivas" (Freud, op. cit., p. 709). Freud utiliza os conceitos de prazer e de dor da obra de G. Th. Fechner "Einige Ideen zur Schöpfungs- und Entwickelungsgeshichte der Organismen, 1873, p. 94 "(4), porque esses "conceitos são idênticos àqueles que nos foram revelados pela prática psicanalítica." (Freud, 1920, p. 639). Para Fechner e, portanto, para Freud, a vida é governada por um princípio da manutenção do eqüilíbrio entre esses dois instintos. Nas palavras de Fechner "qualquer movimento psicofisiológico que se encaminha para esse eqüilíbro é acompanhado de prazer..., ou por dor, se o movimento é em direção contrária e atinge determinado limite."(apud Freud, 1920, p. 639).
    Fechner, em 1873, emprega o termo eqüilíbro em um mimetismo às avessas da 2a Lei da Termodinâmica, sobre a Entropia, termo este primeiramente definido pelo físico alemão contemporâneo, Rudolf Clausius, em 1865. Os processos naturais, digamos, físicos, se dão em direção à desordem, isto é, ao eqüilíbro termodinâmico. Se eu coloco água quente em um recipiente com água fria, o sistema tenderá naturalmente ao eqüilíbrio, a um aumento de entropia do sistema, e o resultado é a homogeneização em uma temperatura média. Se eu dispuser em uma caixa, camadas de bolas brancas alternadas com camadas de bolas vermelhas, essa organização, essa ordem, reflete um estado relativo de baixa entropia. Ao sacudir a caixa, a tendência natural é no sentido de que as bolas brancas e vermelhas se misturem desordenadamente. O sistema assim homogeneizado possui entropia mais elevada que o sistema ordenado em camadas. A manutenção da vida é, portanto, uma luta constante para se distanciar desse eqüilíbrio imposto pela Lei da Entropia. A entropia quer desorganizar, e a Vida quer organizar. A entropia faz doer, e a busca pela Vida traz prazer. Não é por menos que Freud calcou o seu princípio do prazer em uma não-dor. Assim, o chamado eqüilíbrio das pulsões, representa um eqüilíbro psíquico para evitar, ou adiar, o eqüilíbro termodinâmico com o meio-ambiente físico. "Se é verdade que a vida é governada pelo princípio de Fechner sobre o eqüilíbrio constante, então ela é uma descida constante em direção à morte; contudo, a queda é retardada na medida que novas tensões são introduzidas pelo clamor de Eros através do instinto sexual e devido às necessidades instintivas." (3)(Freud, 1923, p. 711). A vida é parte dessa dialética de dois instintos, regidos que são por duas regras maiores e que têm o estatuto de Leis. Vamos chamá-las de Leis Orgânicas Vitais.
    A Primeira Lei Orgânica é a própria Lei da Entropia, a seta do tempo, que regula todos os processos naturais em uma condição de irreversibilidade, tendendo sempre à desordem progressiva. A entropia, como lei cósmica primordial, açambarca tanto o mundo físico (inorgânico) quanto o mundo orgânico. No mundo mental orgânico ela é decodificada pelo instinto de morte (ou pulsão de morte, para o homem).
    A Segunda Lei Orgânica pode ser enunciada em um páragrafo único: "Não pode não-viver e há que manter a vida". O cumprimento dessa lei requer um suprimento constante de energia para o interior do sistema vivente. O alimento, e a defesa na iminência do perigo constituem os dois fatores primordiais na manutenção da vida individual, enquanto que o instinto sexual leva à preservação da espécie - da linha filogenética. Pensemos na Primeira Lei Orgânica como um rio, com margens escarpadas, que desemboca em uma cachoeira, por onde suas águas caem para um nível inferior. Essa caida para um nível de energia potencial mais baixa, para uma altitude menor, representa a tendência ao eqüilíbrio. É esse desnivelamento que faz funcionar a correnteza do rio, ou seja, no nosso exemplo, a regra por trás da lei. A Segunda Lei Orgânica poderia ser representada pelo organismo situado no centro do rio e que tem que se manter distante da cachoeira - distante da morte. Não há como escapar pelas margens - a imortalidade. O ser, para se manter vivo no interior desse campo de força inextingüivel, deve exercer um esforço contínuo em sua luta contra a correnteza. Mas a vida acaba por sucumbir ao poder da Primeira Lei, a qual pode ser burlada, apenas, temporariamente. E o ser humano? Serão somente essas duas as leis que regulamentam sua essência?
    Na próxima seção vamos ver que a evolução introduziu novas pulsões vitais nessa nova espécie que é o Homo sapiens sapiens

    SQGOLD

             Pulsão de Não-Fala
              Alotriose LabiosVamos  nos aproximar da noção de Alotriose partindo de seu contrário. Talvez Freud tenha tomado emprestado alguma coisa dos epicuristas da Grécia antiga, para quem a exaltação do prazer (hedone) tomava como ponto de partida os já reconhecidos impulsos instintivos e naturais do homem. Os estóicos utilizaram o mesmo ponto de partida em sua ética, mas acrescentaram que não era o prazer que era primordial, mas aquilo que eles chamaram de oikeiosis(2), ou seja, a autopreservação, autoconservação, ou autoapropriação. Contudo, estamos mais interessados na noção oposta, alotriose (allotriosis), que significa autoalienação. A noção de alotriose se aproxima da noção de alienação, dela se diferençando pelas implicações do prefixo allo, e pelas atribuições ligadas às suas manifestações. A alotriose é um fenômeno que vai se manifestar através do que chamaremos de pulsão de não-fala:
                Essa pulsão, categorizada como semelhante ao instinto, é um fator inato de comportamento do homem, e se caracteriza pela presença de campos geradores de atividades elementares e automáticas, inconscientes, mas com finalidade precisa de tentativa de retorno à condição animal pré-humana, ou seja, ao estágio do ser-vivo não-falante. Está aí o cerne de nossa definição.
              A alotriose é parte da herança biológica (e psicogenética) herdada dos animais inferiores (não-falantes), após o salto evolutivo que produziu o ser falante. Tal como os outros instintos humanos, a pulsão de não-fala pode ser parcialmente acessível ao controle consciente. Ela se opõe à pulsão de fala, vista no capítulo anterior, da mesma forma que o instinto de morte se opõe ao instinto de vida (ou o Eros freudiano). Pulsões de fala e não-fala são atividades antagônicas, mas complementares e que, juntas, constituem uma única unidade - divisível, mas inseparável. A manifestação de uma implica na existência da outra. Os diferentes graus de manifestação e preponderância desta ou daquela pulsão, vão caracterizar o comportamento de cada indivíduo. Não existe pulsão de fala sem pulsão de não-fala, e vice-versa, tal como a síntese Hegeliana não pode prescindir de seus elementos geradores - tese e antítese; o mesmo ocorre no embate dialético das pulsões de vida e de morte. Poderíamos mesmo nos referir ao ser vivo, como um morto-vivo, onde cada incremento de vida o aproxima mais da morte; ou ao homem, como um mudo-falante (mudo no sentido do mutismo do animal inferior) onde, subjacente à sua fala, existe um campo de atração que o atrai de volta à condições pré-humanas de não-fala. Esses mecanismos paradoxais fazem parte da essência do comportamento humano. Essa essência é consubstanciada pela comunhão de um viver com um falar. No Capítulo 3 (ainda não inserido) escolhemos como a melhor expressão para a lei do falante(1), o que seria um enunciado tipicamente Lacaniano:

              "Não pode não-falar"

              Ora, uma Lei só é instituida quando surge a necessidade de se manter determinada ordem. A infração à lei, implica em desordem e, a respeito da lei do falante, essa desordem é traduzida por uma não-fala (A Alienação), como expressa seu enunciado: "Não pode não-falar". Daí vem nossa proposta em eleger esse não-falar à categoria de pulsão inata. O seu oposto, o que denominamos de pulsão de fala, nada mais é senão a própria tradução da lei. Resumindo, a pulsão de fala traduz a lei do falante, e a pulsão de não-fala, a sua infração, ou seja, a punição em caso de descumprimento da lei. A punição é a Psicose. Seguindo esse raciocínio, poderíamos até dizer que a pulsão de não-fala, traduz uma outra lei, anterior, uma lei dos animais inferiores, que seria enunciada como: "Não pode falar". Entretanto, preferimos não estatuir essa função como lei vigente no mundo não-falante por não encontrarmos uma tensão oposta que exija sua enunciação. Já no universo do falante, a herança da não-fala vai criar, ela própria, uma tensão oposta à lei que institui a fala. A pulsão de não-fala está implícita em Freud, Lacan e em toda a psicoterapia analítica pós-Freudiana, só que travestida de outros significantes, tais como: o desejo de retorno ao primitivo, o desejo de retorno ao ventre materno, a busca do objeto perdido, a busca do objeto "a", o Phalus (em outras instâncias, o termo Phalus designa a propria Lei), o seio materno, o estado narcísico, etc...). Ao introduzirmos o conceito de alotriose, com manifestações provocadas por um impulso, ou seja, por uma pulsão que atrai o falante para não falar, estamos propondo identificar e revelar o mecanismo fundamental, original, inerente e natural por trás de todas as diferentes versões acima mencionadas. O "seio materno", a "busca do objeto perdido", etc..., são formalizações de caráter mais ou menos abrangentes, mas sempre casuísticas. A alotriose está na raiz estrutural sobre a qual se desenham essas diversas formas de expressão, ou melhor, de não-expressão.

              SQGOLD

               Footnotes:

              (1) Esse conceito recebe diversas designações, segundo Lacan: Nome-do-Pai, O Phalus, A Lei, a Ordem do Significante, a Inserção do Simbólico, Estatuto do Sujeito, etc...(ver Hipnose - Psicose - Linguagem)

              (2) Definições retiradas da obra de F. E. Peters: "Termos Filosóficos Gregos - um léxico histórico", 1977, p. 169.

              (3) Achamos que Freud coloca duas classes distintas de efeitos dentro de uma mesma categoria, o que pode levar a uma certa incompreensão de seu raciocínio; seu instinto de morte, enquanto decorrente da entropia, tem um estatuto de Princípio, assim como o "peso" de algo é a resultante de um campo gravitacional - da mesma forma, a deterioração do orgânico é resultado de um campo entrópico. O seu instinto de morte, enquanto instinto destrutivo (Freud coloca o sadismo como um de seus representantes (1923, p. 708)), já pertence a uma categoria distinta, esta sim, com a função de instinto. Uma resulta de um campo externo ao organismo, e a outra é derivada a partir de um campo interno do organismo. (4) Tradução: Algumas Idéias sobre a Gênese e Evolução do Organismos

                OBSERVAÇÃO: As citações de números de páginas da obra de Freud, referem-se à tradução inglesa do Vol. 54 - Great Books, 1952/Enciclopédia Britânica.

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              Federico García Lorca (1898-1936)

              Lorca

              Em 1959, lendo Vinicius de Moraes, aprendi sobre o fuzilamento de Lorca durante a sangrenta guerra civil da Espanha. Foi narrada na contundente ode “A Morte de Madrugada”.  No mesmo ano, comprei dois livros do poeta andaluz. De sua obra maestra, Romancero Gitano  (1924-1927), não havia como deixar de memorizar La Casada Infiel; do Romance Sonámbulo, decorei de imediato seus quatro versos iniciais, e hoje quase que sou capaz de recitá-lo quase por completo. O outro livro, uma coletânea de poesias, Poema del Cante Jondo (1921), inclui a elegia Llanto por Ignacio Sánchez Mejías (1), uma homenagem ao toureiro seu amigo.

              O Romancero Gitano corria de  boca em boca no dia a dia das ruas, das feiras, das tabernas, dos acampamentos ciganos, das praças. à maneira das manifestações poéticas medievais. “[…] Lorca foi um poeta que viveu na tradição oral. O fascínio do público por sua poesia emanava também da maneira que o poeta recitava, que revivia a arte de trovar da Idade Média espanhola[…]” (2).

              Ainda falta para terminar meu encontro com Lorca

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              La Casada Infiel

              A Casada Infiel (3)

               

              Y que yo me la llevé al río
              creyendo que era mozuela,
              pero tenía marido.

              Fue la noche de Santiago
              y casi por compromiso.
              Se apagaron los faroles
              y se encendieron los grillos.
              En las últimas esquinas
              toqué sus pechos dormidos,
              y se me abrieron de pronto
              como ramos de jacintos.
              El almidón de su enagua
              me sonaba en el oído,
              como una pieza de seda
              rasgada por diez cuchillos.
              Sin luz de plata en sus copas
              los árboles han crecido,
              y un horizonte de perros
              ladra muy lejos del río.

              Pasadas las zarzamoras,
              los juncos y los espinos,
              bajo su mata de pelo
              hice un hoyo sobre el limo.
              Yo me quité la corbata.
              Ella se quitó el vestido.
              Yo el cinturón con revólver.
              Ella sus cuatro corpiños.
              Ni nardos ni caracolas
              tienen el cutis tan fino,
              ni los cristales con luna
              relumbran con ese brillo.
              Sus muslos se me escapaban
              como peces sorprendidos,
              la mitad llenos de lumbre,
              la mitad llenos de frío.
              Aquella noche corrí
              el mejor de los caminos,
              montado en potra de nácar
              sin bridas y sin estribos.
              No quiero decir, por hombre,
              las cosas que ella me dijo.
              La luz del entendimiento
              me hace ser muy comedido.
              Sucia de besos y arena
              yo me la llevé del río.
              Con el aire se batían
              las espadas de los lirios.

              Me porté como quien soy.
              Como un gitano legítimo.
              Le regalé un costurero
              grande de raso pajizo,
              y no quise enamorarme
              porque teniendo marido
              me dijo que era mozuela
              cuando la llevaba al río.

              E eu que fui levá-la ao rio
              Pensando que era donzela,
              Porém tinha marido.

              Foi a noite de São Tiago.
              E quase por compromisso.
              Os lampiões se apagaram
              E se acenderam os grilos.
              Já nas últimas esquinas
              Toquei seus peitos dormidos,
              que se me abriram de pronto
              como ramos de jacinto.
              A goma de sua anágua
              soava em meu ouvido
              omo uma peça de seda
              rasgada por dez punhais.
              Sem luz de prata nas copas
              as árvores têm crescido,
              e um horizonte de cães
              ladra bem longe do rio.

              Atravessando os sarçais,
              mais os juncos e os espinhos
              ,sob seus bastos cabelos
              fiz um côncavo no limo.
              Eu tirei minha gravata.
              Ela tirou seu vestido.
              Eu, o cinturão e revolver.
              Ela, seus quatro corpinhos.
              Nem nardos nem caracóis
              têm uma cútis tão fina,
              nem os cristais sob a lua
              relumbram com tanto brilho.
              Sua coxas me escapavam
              como peixes surpreendidos,
              metade cheias de luz,
              metade cheias de frio.
              Galopei naquela noite
              pelo melhor dos caminhos,
              montado em potra de nácar
              sem rédeas e sem estribos.
              Não quero dizer, por honra,
              as coisas que ela me disse.
              A luz do entendimento
              me faz assim comedido.
              Suja de beijos e areia,
              eu a levei do rio.
              Contra o vento se batiam
              as baionetas dos lírios.

              Portei-me como quem sou.
              Como gitano legítimo.
              Dei-lhe cesta de costura,
              grande, de cetim palhiço,
              e não quis enamorar-me,
              pois ela, tendo marido,
              me disse que era donzela
              quando eu a levava ao rio

              (A Lydia Cabrera
              y a su negrita)

               

              ***

              ***

              Os primeiros oito versos do Romance Sonámbulo são dos mais famosos da língia espanhola. “O poeta evoca o verde e a lua com a sua fatídica presença branca; evoca a água, com a sua possibilidade de fecundação e de erotismo e toda fauna e a flora para compor o processo de criação. Estes são emblemas de amor e morte, vida e dor, peculiares na poética lorquiana […]” a presença do mar, do barco, da sombra, do cavalo, da montanha, do vento, da mulher na varanda incorpora-se a um motivo; o mais constante na poesia de Garcia Lorca: a lua, sempre” […] a personagem cigana está quase morrendo na imensidão da luz tenebrosa da lua; Por outro lado, essa dor também está estreitamente relacionada à sua marginalidade; à sua condição de  perseguida” (2). O final do Romance dá conta da perene e antiga hostilidade entre ciganos e poderosos. Os quatro últimos versos repetem a estrofe inicial. Na morte iminente, uma esperança verde ainda paira no ar.

               

              Romance Sonámbulo

               
               

              Verde que te quiero verde.
              Verde viento. Verdes ramas.
              El barco sobre la mar
              y el caballo en la montaña.

              Con la sombra en la cintura
              ella sueña en su baranda,
              verde carne, pelo verde,
              con ojos de fría plata.
              Verde que te quiero verde.
              Bajo la luna gitana,
              las cosas la están mirando

              y ella no puede mirarlas.
              Verde que te quiero verde.
              Grandes estrellas de escarcha,
              vienen con el pez de sombra
              que abre el camino del alba.
              La higuera frota su viento
              con la lija de sus ramas,
              y el monte, gato garduño,
              eriza sus pitas agrias.
              ¿Pero quién vendrá? ¿Y por dónde?
              Ella sigue en su baranda,
              verde carne, pelo verde,
              soñando en la mar amarga.

              --Compadre, quiero cambiar
              mi caballo por su casa,
              mi montura por su espejo,
              mi cuchillo por su manta.
              Compadre, vengo sangrando,
              desde los puertos de Cabra.
              --Si yo pudiera, mocito,
              este trato se cerraba.
              Pero yo ya no soy yo,
              ni mi casa es ya mi casa.
              --Compadre, quiero morir,
              decentemente en mi cama.
              De acero, si puede ser,
              con las sábanas de holanda.
              ¿No ves la herida que tengo
              desde el pecho a la garganta?
              --Trescientas rosas morenas
              lleva tu pechera blanca.
              Tu sangre rezuma y huele
              alrededor de tu faja.
              Pero yo ya no soy yo,
              ni mi casa es ya mi casa.
              --Dejadme subir al menos
              hasta las altas barandas,
              ¡dejadme subir!, dejadme
              hasta las verdes barandas.
              Barandales de la luna
              por donde retumba el agua.
              Ya suben los dos compadres
              hacia las altas barandas.
              Dejando un rastro de sangre.
              Dejando un rastro de lágrimas.
              Temblaban en los tejados
              farolillos de hojalata.
              Mil panderos de cristal
              herían la madrugada.
              Verde que te quiero verde,
              verde viento, verdes ramas.
              Los dos compadres subieron.
              El largo viento dejaba
              en la boca un raro gusto
              de hiel, de menta y de albahaca.
              --¡Compadre! ¿Dónde está, dime?
              ¿Dónde está tu niña amarga?
              ¡Cuántas veces te esperó!
              ¡Cuántas veces te esperara,
              cara fresca, negro pelo,
              en esta verde baranda!

              Sobre el rostro del aljibe
              se mecía la gitana.
              Verde carne, pelo verde,
              con ojos de fría plata.
              Un carámbano de luna
              la sostiene sobre el agua.
              La noche se puso íntima
              como una pequeña plaza.
              Guardias civiles borrachos
              en la puerta golpeaban.

              Verde que te quiero verde,
              verde viento, verdes ramas.
              El barco sobre la mar.
              Y el caballo en la montaña.

               
               

              (A Gloria Giner e a
              Fernando de los Rios)

               

              ***

              LIanto por Ignacio Sánchez Mejías - Ignacio foi um toureiro sevilhano (1891-1934), morto  na arena de Manzanares, em 11 de agosto de 1934. Foi-me inesquecível durante mais de 50 anos o ponteio “A las cinco de tarde […] A las cinco en punto de la tarde […]”, que agora pode ser aferido pela comovente declamação de Ramón Fernández "Palmeral". A las cinco de la mañana foi a hora que Federico caiu morto, assassinado pelos touros negros de Franco em uma estrada de Granada.

               

              ***

               




              Uma morte anunciada.
              Ignacio encurralado.

              Ignacio Sanchez
               




              A estocada final, minutos após ter vestido a veste clara de matador.
              O touro permanece com as três bandarilhas (colorido digital).

              Ignacio Sanchez2

              *** ***

              (1)  Ambos da Editorial Losada S.A., Buenos Aires, Argentina;  Ler na íntegra Poema del Cante Jondo;
              (2) Ler Notas sobre o Romance Sonâmbulo, de Maria das Graças Ferreira Graúna;
              3) (4) Modificado das traduções de Paulo Mendes Campos e Zelia Tellaroli N. Zamora;

              ***

              Thompson Fotos

               

               

              Regina

              Regina Thompson

               





              Regina & netos

              Regina e netos
               






              Mathilde & Julya

              Mathilde e Julya
               

               

               

              Andrea

              Andrea

               

               

               

              Arilno, Ana Cristina e Tiago

              Arilno e Familia
               

               

               

              Dulce

              FOTO DULCE 12

              Garcilaso

              Marchinhas de Carnaval

              Benditas Marchinhas de Carnaval

              http://letras.terra.com.br/marchinhas-de-carnaval/

              1. A Banca do Guarda
              2. A Baratinha
              3. A Bolsinha do Waldemar
              4. A Bruxa Vem Aí
              5. A Canôa Virou
              6. A Cara me Cai
              7. A Carta
              8. A Casta Suzana
              9. A Coroa do Rei
              10. A Dança do Cafuné
              11. A Dança do Funiculí
              12. A Dois Mil Não Chegará
              13. A e i o u
              14. A Filha de Chiquita Bacana
              15. A Fonte Secou
              16. A Jardineira
              17. A Lua é Camarada
              18. A Mulata É a Tal
              19. A Mulher do Padeiro
              20. A Pipa Do Vovô
              21. A Praça
              22. A, é é
              23. A.B. Surdo
              24. Acende a Vela
              25. Acho-te Uma Graça
              26. Acorda Estela
              27. Acorda, Escola de Samba
              28. Acorda, Maria Bonita
              29. Adeus Helena
              30. Adeus, Adeus
              31. Adeus, Vou me Embora
              32. Agora é Cinza
              33. Água Lava Tudo
              34. Água na Boca
              35. Ai Morena
              36. Ali-Babá
              37. Allah-La Ô
              38. Alô Fevereiro
              39. Amar a Uma só Mulher
              40. Amei
              41. Amei Demais
              42. Amor de Palhaço
              43. Amor de Rica
              44. Andorinha
              45. Apaga a Vela
              46. Apareceu a Margarida
              47. Aquele Amor
              48. Aqui Geralda
              49. Arca de Noé
              50. Arrependida
              51. As Águas Vão Rolar
              52. As Cadeiras me Doem
              53. Até Amanhã
              54. Até de Manhã
              55. Até Quarta Feira
              56. Atire a Primeira Pedra
              57. Atrás da Banda
              58. Atrás do trio elétrico
              59. Audácia do Bofe
              60. Aurora
              61. Avenida Iluminada
              62. Ba-Babando
              63. Baile do Municipal
              64. Balancê
              65. Balzaqueana
              66. Bananeira não dá Laranja
              67. Bandeira Branca
              68. Barbeiro de Sevilha
              69. Barra Limpa
              70. Barracão
              71. Bastião
              72. Bebê de Proveta
              73. Bebo Pra Esquecer
              74. Bicho Bom
              75. Bigorrilho
              76. Bigú
              77. Bloco Bicho de Pé
              78. Bloco Bico do Corvo
              79. BLOCO CRUZ-CREDO
              80. Bloco da Maricota
              81. Bloco da Pipoca
              82. Bloco da Solidão
              83. Bloco do Balacobaco
              84. Bloco do Barbosa
              85. Bloco do Curupira
              86. Bloco do Deixa
              87. Bloco do Juca Teles
              88. Bloco do Sujo
              89. Bloco Pé Na Cova
              90. Boêmio de Raça
              91. Boi da Cara Preta
              92. Bonequinha Iê, Iê, Iê
              93. Bota Camisinha
              94. Botão de Rosa
              95. Break, Break
              96. Brigas de Amor
              97. Cabeleira Do Zezé
              98. Cachaça
              99. Cachaça Não É Água
              100. Caiu Na Rede
              101. Can Can
              102. Chik Chik Bum
              103. Chiquita Bacana
              104. Chuva, Suor e Cerveja
              105. Cidade Maravilhosa
              106. Coitadinho do Papai
              107. Colombina Iê Iê Iê
              108. Com que roupa?
              109. Compensou
              110. Confete
              111. Coração Corinthiano
              112. Dama das Camélias
              113. Daqui Não Saio
              114. Dig dim dim
              115. Disco voador
              116. Enfeite de Carnaval
              117. Espanhola
              118. Está Chegando a Hora
              119. Estão Voltando as Flores
              120. Estrela do Mar
              121. Eu, Você e o Luar
              122. Evocação Nº 1
              123. Flor Tropical
              124. Foi ela!
              125. Gelinho
              126. Grau Dez
              127. Hino do 1º Carnaguari
              128. Hino do Carnaval Brasileiro
              129. Iaiá Boneca
              130. Índio Quer Apito
              131. Jardineira
              132. JouJoux e Balangandãs
              133. Jura
              134. Lancha Nova
              135. Lata D'Água
              136. Linda Lourinha
              137. Linda Morena
              138. Madeira Que Cupim Não Rói
              139. Mal-Me-Quer
              140. Mamãe Eu Quero
              141. Marcha da Cueca
              142. Marcha do Cachorro
              143. Marcha Do Caracol
              144. Marcha Do Cordão Do Bola Preta
              145. Marcha do Gago
              146. Marcha do Remador
              147. Marcha do Tambor
              148. Maria Candelária
              149. Maria Sapatão
              150. Máscara Negra
              151. Me Dá Um Dinheiro Ai
              152. Meu Brotinho
              153. Mulata Bossa Nova
              154. Mulata Iê Iê Iê
              155. Nega Maluca
              156. Nós, Os Carecas
              157. Ó Abre Alas
              158. O Cordão dos Puxa-Saco
              159. O Teu Cabelo Não Nega
              160. O Trovador
              161. Pastorinhas
              162. Pé De Anjo
              163. Pegando Fogo
              164. Pierrô Apaixonado
              165. Pirata Da Perna De Pau
              166. Pirulito
              167. Pó De Mico
              168. Quem Sabe, Sabe
              169. Saca-Rolha
              170. Sassaricando
              171. Ta-Hí
              172. Tem Nêgo Bêbo Aí
              173. Tomara Que Chova
              174. Touradas em Madri
              175. Tristeza
              176. Turbilhão
              177. Turma do Funil
              178. Twist no Carnaval
              179. Upa Upa
              180. Vaca Amarela
              181. Vai Com Jeito
              182. Vamos Pra Caminha
              183. Videogame Coreano
              184. Vila Esperança
              185. Vírgula
              186. Yes, Nós temos Bananas
              187. Zé Marmita

              ***

              marchinhas2

              Marchinhas
                 

              Noemia Sarcia

              Noemia

               

              EM CONSTRUÇÃO

              Introdução

              Introdução
              — Introdução —

              Acontecimentos que marcaram tempos e lugares. Imagens e ditos benditos e benvindos. Vieram de amigos e parentes, escritores, mitos, músicos, poetas, cineastas, cientistas e filósofos.

              Arthur Dapieve. José Saramago, ao olhar a bunda de sua mulher, Pilar, inspira Dapieve na mais perfeita e sintética definição de amor. Um compêndio condensado em uma frase;
              Sommerset Maughan. O Fio da Navalha foi um livro que só conta por uma citação da folha de rostro que me levou a ler em seguida os Upanishads e o  Bhagavad Gita. Julio Cortázar e um texto sobre o beijo, que desencoraja qualquer tentação em se escrever algo semelhante;
              José Saramago. O mais puro lirismo erótico de uma primeira noite de amor, que se seguiu à mais longa declaração de amor por telefone que alguém já registrou;
              Walter Benjamin. Outro olhar, uma outra visão que desmonta os cânones estéticos;
              Calderón de La Barca, que afortunadamente intrometeu-se em meu encontro com Aurora em Madrid;
              Djavan e os versos que roubei de  para presentear Jocasta;
              Alexander Pope e um poeminha que narra o Gênesis da física moderna, um fiat Newton incomparável;
              Anna de Noailles, condessa mundana da Belle Époque, e um curto verso de sete palavras que desafia qualquer tradutor da língua francesa;
              Gulherme de Brito e a canção cuja letra me orientava em encontros com pessoas tristes;
              Zé Kéti e outra letra, que eu costumava cantarolar, em momentos oportunos, para minhas namoradas adolescentes;
              — Euclides da Cunha
              e a mais bela página da literatura brasileira;
              Guimarães Rosa ficou para sempre com o romance Grande Sertão, Veredas e os contos de Sagarana. O romance..., levei trinta anos para lê-lo como deveria, isto é, palavra por palavra. Sagarana é releitura que se repete com freqüência, talvez pela intimidade que tenho com os sertões e o agreste de Minas Gerais; Fernando Pessoa e o mar português;
              Carlos Drummnd de Andrade. Descobri uns versos de Drummond que seriam, com certeza, uma resposta a outros de Fernando Pessoa;
              Inês Pedrosa é uma descoberta recente. Transcrevo dois curtos parágrafos que me levaram a ler vários de seus livros;
              Ingrid Borinski, há trinta anos, presenteou-me com sua tradução de Herzstück (Peça do Coração em Um Ato), de Heiner Müller. Uma jóia humorística que é pouco ou quase nada conhecida no Brasil, embora tenha sido traduzida para uma dezena de idiomas;
              Ivan Lins. Ao me recuperar de um prolongada depressão, seus versos me mostraram “que a vida pode ser maravilhosa”; O Cristo Carpinteiro, de autor desconhecido. A frase mais terrível que já lí!
              Marcel Proust e John Ruskin. Minhas conexões com ambos e entre eles; de Fernanda Schnoor, me restaram alguns poemas, um breve texto e um postal com a letra da música “A little Kiss each morning”;
              John Keats não me passou desapercebido. Lí o longo poema Endymion, mas minha homenagem é feita pela transcrição do primeiro verso (um dos mais belos e famosos da língua inglesa);
              Wolfgang von Göethe escreveu uns versos que compunham um mandamento para os estudantes de geologia da Universidade de Viena. Arrisquei uma tradução; Hector Bianciotti, que me mostrou a diferença entre “l’oiseau” e “el pájaro”; Manoel Bandeira ficou-me inesquecível com sua Passárgada. Quantas vezes eu recitei aqueles quatro versos!!!;
              Paulo Mendes Campos. Um vício. É um dos dois autores de quem li toda a obra. Algumas delas ainda em minha mesa de cabeceira; Oscar Wilde é o outro. Também sempre à mão;
              Eduardo Galeano foi leitura obrigatória dos anos 1970. Contestador das injustiças sofridas pelos atormentados povos dos terceiro e quarto mundos. Impossível de resumí-lo. Leiam-no todo. Menciono apenas quatro ditos de um lado seu de humor oportuno. Gostaria de ter escrito essas frases;
              Kurt Gödel é aqui acompanhado por Douglas Hofstadter. Gödel, com seu Teorema da Incomplitude, derrubou os alicerces lógicos da colossal obra de Bertrand Russel e Alfred Withehead – Principia Mathematica. Esse teorema hyper-complexo passou a ser accessível ao entendimento do leitor curioso através do livro de Hofstadter – Gödel, Escher & Bach, talvez o livro, livro não, o compêndio mais “rico” que já li. Sempre à mão para consultas constantes; Edgar Alan Poe e a descoberta de Lenore;
              Gilgamesh. Vai e volta, releio o trecho dessa epopéia, o mais antigo texto impresso que se tem notícia. Também ousei levantar a possibilidade de a história desse herói ter influenciado Guimarães Rosa em sua outra epopéia, o Grande Sertão, Veredas;
              Pérola Akerman, arquiteta, psicóloga e filosófa, estava inspiradíssima quando conseguiu a proeza de resumir grande parte do ensinamento de Jacques Lacan em um único poema;
              — Ligia Karam
              , minha mulher, que sempre soube transformar os ditos em feitos e fatos;
              Félix Arver, o poeta de um único poema, dos mais famosos do romantismo francês do séc. XIX;
              Muhamad Ali e o mais curto poema da língua inglesa. Quatro letras em duas palavras;
              — Pablo Neruda
              e os dois de seus poemas mais famosos dos Anos Dourados do Rio de Janeiro;
              Axel Munthe. Para saber do impacto em se avistar uma fada, leiam o trecho de o Livro de San Michele;
              Rainer Maria Rilke e os três versos que me foram segredados por Ieda Inda, porém ela não cumpriu o dito.... e foi o fim de um affair; Robert Frost. Um verso bastante conhecido do poema The Road not taken,  ajudou-me quando tomei a difícil decisão de ir trabalhar na Guiné Bissau;
              Jehovah e o mais universal dos ditos do mais famoso mito da civilização judáico-cristã;
              Jacques Lacan e seu dito ilustrado e intrigante, o Nó Borromeano;François Villon, poeta alcóolatra, ladrão, assassino, condenado à forca e banido;
              — Joana Narvaez y yo... Yo que no creo en brujas, pero que las hay, las hay!
              Tatiana Weihmann, alvejante do meu niver com presença e palavras;
              — Li Po
              , poeta do século VIII, e um amor cuja “profundidade” jamais foi igualada;
              — T.S. Eliot
              e seus gatos;
              — Isaac Asimov.
              O autor mais prolífico de todos os tempos. Um monumento. Publicou 515 livros. Li 77 (ainda em minha estante);
              Ezra Pound. Um mestre. A mais precisa e concisa definição de poesia que conheço; Thomas Friedeman. Uma alegoria de uma tribo africana que resume a vida atribulada e competitiva do mundo globalizado;
              Ditos de Maria Antônia, irmã e minha primeira tutora literária;
              de sobra, Poesias de Luis Alfredo e, com entrada separada
              Maria e José…Nunca Mais!!!

              Hoje 4 de janeiro de 2011, ainda faltam: Ligia, Lara, Maria Vitória, James Joyce, Lawrence Durrel,  Jack Kerouac, Paul Géraldy, Jacques Prevert, Federico Garcia Lorca, Vladmir Maiakovski, Friedrich Nietzsche, Ferreira Gullar, François Villon, e mais…

              ***

              Maria Antônia (1932- )

              Maria Antônia (1932- )
                Ma-Antonia 40 anos
              c.1955. Eu tinha uns quatorze ou quinze anos quando ouvi minha irmã recitar alguns trechos do poema Dactilografia, de Fernando Pessoa. Vira e volta ela sempre tentava me provocar, queria que eu ouvisse isso ou aquilo. Certo dia, estava passando pela sala e, quando ela passou pelo “tique-taque estalado da máquina de escrever”, me deu um “tique”, seguido de um “taque”, comecei a ler Pessoa e não parei mais. Naquele momento estava estabelecida a relação mestre – discípulo entre mim e minha irmã. A partir de então, e sempre, quando ela contava de livros ou cinema, eu escutava.
              Após ter descoberto o autor de Em Busca do Tempo Perdido, lá pelo fim dos anos 1950, foi a Paris em 1960 buscar Proust.  Achou outra coisa… melhor – o Carlos. Por sua influência, data desse período minha leitura de A Prisioneira. Nunca me esqueci da poderosa e longa narrativa sobre o estado de vigília. Aquele momento que não é ainda, mas é quase (ver neste site Marcel Proust)
              Ainda adolescente ela me apresentou a Jacques Prévert (Spectacle e Paroles), Paul Géraldy (Toi e Mois) e Arthur Rimbau, este com o poema Voyelles , e Marcel Proust. De Proust, li aguns trechos de A Prisioneira e No Caminho de Swan, ambos em tradução. Também insistira para que eu lesse L’Imoraliste, de André Gide, L'Étranger, de Albert Camus, e L'Être et le Neant, de Paul Sartre. Peguei em Sartre mais velho, a vol d’oiseau.
              Em 1989, recebi uma longa carta em Bissau, onde ela dizia ter lido “a mais longa declaração de amor por telefone”. Era Raimundo Silva para Maria Sara – os dois protagonistas de o Cerco de Lisboa, de José Saramago. Foi fácil encontrar o livro na ex-colônia portuguesa.
              Em junho de 2010 Maria Antônia nos apresentou à escritora portuguesa Inês Pedrosa (Fazes-me falta e Em tuas mãos). Minha mulher Ligia leu primeiro e insistiu. Que descoberta! Na mesma época, em São Paulo, leu-me um trecho da escritora libanesa Nada Moghaizel, C’est para la Poesie, do livro Images Écrites, onde a autora fala do aprendizado da língua durante a infância. Um aprendizado que de dá involuntariamente através da poesia. “…Nós compreendíamos os poetas antes mesmo de compreender a língua”. Era a voz “tão bela” da “maman” consolando a criança. O texto me tocou tanto com …a beleza das palavras é tão imensa que elas contém até mesmo aquilo que desconhecemos.
              Novembro de 2010. Estou iniciando seu outro presente, Un amour de Swann, (décima segunda parte do Du côté de chez Swann), romance que recebeu o “Grand Prix des meilleurs romans du demi-siècle” (1950). Estarei em boa companhia por algum tempo.

              Mas, suas descobertas, que eu pego emprestadas, não param. Para citar a última (novembro de 2010), ela chegou de Portugal com um dito para mim inédito: a saudação lisboeta “– Até sempre”. Depois disso, eu nunca mais falei “– Até logo”.
              Janeiro de 2011, e o ano principia com seu presente supresa:Œuvres, de Rimbaud (Ed. Garnier, 1998). Mais uma boa companhia.
              Outro dia Maria Antônia me ligou para revelar um novo achado. Estava ela no consultório, a porta se abriu e um paciente, ao se despedir do médico, exclamou:   “– Até de repente” . Era um português.

              28/01/2011

              ***

              T. S. Eliot (1888-1965)


              Thomas Stearns Eliot (1888-1965)eliot23

              Poeta modernista, teatrólogo e crítico literário, nascido nos EUA e naturalizado inglês.
              Em 1965, motivado por um longo prefácio de Eliot no livro Selected Poems, de Ezra Pound, passei por trechos de sua obra-prima – Four Quartets (1) e The Waste Land (1922), livros que justificaram o prêmio Nobel de literatura em 1948. Waste Land é considerado por muitos o melhor poema do séc. XX. É dedicado a Pound com a frase “il miglior fabbro” (o melhor artesão). Posteriormente, li outras poesias e algumas das cartas trocadas com Ezra Pound.
              Contudo, Eliot se encontra por aqui por causa de seu livro “Old Possum's Book of Practical Cats” (1930) (2), descoberto por coincidência e acaso em um livraria de Londres, em 2000, um dia depois de eu e Ligia termos assistido um dos mais famosos musicais da história da Broadway – Cats (3). Com exceção da canção Memory, o livro é o libretto da peça.  Eliot sabia tudo sobre gatos. Outros que dissertaram com maestria sobre esses felinos, são: Júlio Cortázar, com seu livro de contos Orientação do Gatos, John Davies, e seu Garfield (4) e Ayrton Macedo (5).
              No poema The Naming of Cats, o poeta conta e canta que os gatos devem ter três nomes diferentes. Abaixo, transcrevemos o final, que fala do último e inominável nome. Quem os conhece fica assim sabendo em que está pensando seu gato naqueles momentos de “imensa contemplação”.
              The Naming of Cats (final)
              But above and beyond there's still one name left over,
              And that is the name that you never will guess;
              The name that no human research can discover,
              But THE CAT HIMSELF KNOWS, and will never confess.
              When you notice a cat in profound meditation,
              The reason, I tell you, is always the same:
              His mind is engaged in a rapt contemplation
              Of the thought, of the thought, of the thought of his name:
              His ineffable effable
              Effanineffable
              Deep and inscrutable singular Name.
              Mas acima e além, existe um nome guardado,
              E esse é o nome que jamais você encontrará,
              Um nome que os humanos sequer hão de ter pensado,
              Só O PRÓPRIO GATO SABE, e ele jamais o pronunciará.
              Se você encontrar um gato em profunda meditação,
              Saiba a razão que o tempo lhe consome:
              Sua mente paira a divagar em imensa contemplação…
              E ele pensa, e pensa,
              só pensa em seu nome:
              Seu inefável efável
              Efaninefável
              Profundo e inescrutável sentido de seu Nome.
              (1) Quatro longos poemas publicados separadamente: Burnt Norton (1936), East Coker (1940), The Dry Salvages (1941) and Little Gidding (1942). Uma meditação profunda sobre a natureza do tempo com respeito à teologia, história, natureza e a condição humana. Em cada poema há uma associação com cada uma dos quatro elementos – ar, terra, água e fogo. Leiam em inglês!
              (2) “Old Possum”(Velho Gambá) – apelido dado por Ezra Pound.
              (3) In 1954, o compositor Alan Rawsthorne musicou seis de seus poemas, em uma peça intitulatada Practical Cats. Após a morte de Eliot, esse trabalho serviu de base para o musical, Cats, de Andrew Lloyd Webber. Sua estréia se deu em Londres, em 1981, e foi consagrada por mais de vinte anos em cartaz na Broadway (ver Wikipedia).
              (4) O gato Garfield, de John Davis, é a estrela de uma dos quadrinhos mais famosos da história, sendo publicado em mais de 2000 jornais de todo o mundo.
              (5) O blog de Ayron Macedo nos ensina muito sobre gatos e aponta que o escritor argentino Julio Cortázar era louco por gatos. Entre seus livros deixou-nos um, de contos, intitulado “Orientação dos gatos”. Mais que isso, Cortázar teve um gato ao qual se referiu em sua obra. O escritor deu a ele o nome pomposo do filósofo alemão Theodor Adorno.