Fernanda Schnoor (1944-)

Fernanda Schnoor (1944-) 

 

Sete amores,
Sete amores?
Sei lá...
Parece busca

Mas também parece perda
A cada um que se vai
Resta eu...
Eu, quem? Eu, como?

As noites de pulsar rouco
O coração encantado,
Ficaram nas rugas ascendentes

Do meu rosto?
Ou se derreteram no espelho
Sozinho do meu quarto?

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(para LAMC,18/10/1985)

***

 

Sete vidas de labor Luis servia
A sete damas belas
Mas servia ao amor,
Não servia a elas

Os anos, na esperança de um só dia,
Passavam-se, contentando-se com um sonhar.
Porém a moira, usando de argúcia,
Em lugar do amor, lhe deu penar

Vendo-o triste Luis que com desditas
Lhe fora assim negada a sua musa
Como se ela lhe fora prometida

Começou a servir outras vidas
Dizendo: – Mais servira se não fora
Para tão inútil busca, tão curta a vida

(para LAMC,18/10/1985)

***

“Tem dias, como hoje, em que eu me sinto que nem criança da Funabem. Aí eu quero ganhar pipoca, ouvir história de fada e bruxa, e passo a ouvir vozes “vai todo o mundo botar maillot, pegar pé-de-pato e bóia que vamos pra praia”, “Sai daí menina, senão vai levar uma palmada”, “Tem doce de leite no almoço, mas lembre que sobremesa não é para encher a barriga, é só para adoçar a boca”... e a colher mais pequenininha do faqueiro e a ponta da língua vão eternizando o doce pela tarde adentro... e eu acordo com a boca amarga.

E foi assim que hoje eu cheguei ao escritório e ganhei um ramo de ouro que conta histórias, O gosto do doce de leite oca e adoçou voltou à minha boca e adoçou minha alma”.

(Fernanda Schnoor, em resposta a um livro-presente que lhe dei – O Ramo de Ouro – do antropólogo Sir James George Frazer em 23/8/1985)

***

  LA,
Trata-se de um bilhete passional.
Leia-o com ar indignado.
Tipo vestido de renda negra, rosa vermelha ao peito, mãos nas cadeiras e tudo:
“– Quando é que você vai me convidar para tomar um sorvete na esquina?”
 
 

Rio, 1986

 

***

 

O Meu Amor

 
  Olhos que buscam e
Perfuram os meus, essa
Janelas embaçadas por onde
Escorre meu desejo escondido –
Desejeo de ter desejado!

Mãos que se me cravam
Na carne. abrindo crateras
Por onde grita minha
Alma desconhecida –
Alma tão almejada!

Braços que cobrem meu
corpo tão forte, e enfraquecem
Vaidades construídas na dor
Revelando humildades –
Doces, úmidas humildades!

Boca bendita que abençoa
O ar com notas de amor.
Música viva para meu coração
Que dança alegre e cativo –
Eternamente!

(LA, não sou poeta mas o amor me autoruza à pretensão a poetar. Por isso cometi esse pequeno deslize).
 
 

Bissau, 8 de Jjulho de 1990

 

***

A Little Kiss Each Morning

 

We´ll be so happy, we´ll always sing
If we remember one little thing
A little kiss each morning
A little kiss each night.

Who cares if hard luck may be ahead
An empty cupboard, a crust of bread
A little kiss each morning
A little kiss each night.

Dreams may disappoint us as they often do
Bring your dreams to me, dear,
I´ll bring mine to you.
Though hair so golden may turn to gray
I´ll always love you, the same old way
A little kiss each morning,
A little kiss each night

 

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(Postal que recebi de Fernanda Schnoor em 1986.
Quadro de Lucien Levy Dhurmer (1865-1954),
com a canção “A little kiss each morning”
(música de Rudy Vallee (1901-1986) e
Letra de Mel Torme (1925-1999))